4 coisas que (re)aprendi ao falar sobre carreira em design para adolescentes de uma escola pública

Raphaella Quarterone
7 min readOct 4, 2022

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Eu, eventualmente, apresento meu trabalho em eventos para designers, meu cotidiano é cheio de apresentações profissionais e, como pós-graduanda, tenho feito várias defesas acadêmicas. Eu gosto de apresentações, de montar uma estratégia que vá desde o roteiro até a narrativa, passando pelo visual, afinal, eu sou designer gráfica. Então por que, quando um colega professor me fez o convite de falar sobre design para adolescentes de uma escola pública, eu senti aquele frio na barriga?

A partir do objetivo de apresentar a carreira em design e áreas de atuação possíveis, me vi diante de uma das tarefas mais importantes que já tive: levar esperança profissional, ao mostrar pra adolescentes de uma escola pública de uma região periférica de São Paulo, que essa é uma área em que eles podem construir um caminho.

E mesmo que eu saiba que nossa comunidade ainda apresenta muitos obstáculos por ter uma natureza elitista, eu queria que esses jovens saíssem com a esperança que eu nem tinha quando era adolescente: entrar em uma área tão criativa e inovadora é possível, apesar da nossa classe social. Apesar de achar que o conteúdo em si fosse a parte mais fácil, visto que eu apresentaria a carreira a partir da minha experiência sobre as várias áreas que já atuei, ao final do evento senti que quem aprendeu mais fui eu mesma.

O design inspirador é o que cataliza criatividade

Quando comecei a desenhar minha apresentação, deletei várias vezes informações que costumo colocar quando crio materiais para palestras: minha apresentação profissional, meu cargo atual, a qual time pertenço, em qual produto trabalho. Isso não seria atrativo pra adolescentes.
Fiz então um mergulho no meu passado e relembrei a adolescente que tinha como dissociação da realidade a criação, seja de desenhos, de moda, de decoração e de craft.

Colagem com minhas referências de adolescência: desenhos animados, HQs, arte e moda de rua, arte pós
Comecei fazendo um mergulho no meu passado: quadrinhos, desenhos animados, moda de rua, ilustradores

Considerando a importância de uma conexão com o público já nos primeiros momentos de uma fala, o exercício de relembrar o que me trouxe à carreira de design me levou de volta à minha motivação inicial e, como diria Simon Sinek, comecei pelo porquê: eu gostava de ser criativa.

Os jovens que se inscreveram para participar dessa conversa se identificam como pessoas criativas, pessoas com necessidade de expressão artística ou ao menos pessoas com grande interesse por arte e criatividade. Foi então que entendi que falar dos meus interesses (nesse caso, os meus interesses da época de adolescência) me conectaria com eles pela identificação.

Sabemos que muitos dos interesses dos adolescentes são, geração após geração, tidos como irrelevantes, incômodos, temporários e até mesmo inúteis, por isso, mostrar que o que eu consumia foi o que me aproximou de descobrir a área de atuação pela qual posteriormente me interessei foi o que eu fiz pra mostrar uma das minhas crenças: o que você gosta é importante. Ou usando as palavras que usei: se você gosta, é importante.

Colagem com minhas referências de adolescência: desenhos animados, HQs, arte e moda de rua, arte pós

O visual é a porta de entrada para designs mais fortes, por isso joguei a narrativa de discovery fora e foquei em compartilhar meus interesses em tv e cinema, quadrinhos, ilustrações, arte e moda de rua, música, subculturas e revistas. O resultado aqui foi sucesso, consegui participação do público com mais compartilhamento de gostos e interesses e vi que não estou muito distante dessa nova geração 😄

A comunidade de design ainda é muito fechada

Estar inserida há 13 anos no mercado de design faz com que eu esteja constantemente em busca de novos aprendizados e especializações e, por ter a sorte de gostar do que eu faço e por ter a maioria de amigues na mesma área que eu, o tema acabou se tornando parte considerável da minha vida, do meu olhar, das minhas conversas e interesses.

Contudo, embora eu me considere uma pessoa que está sempre em contato com muito da realidade do país e das tendências e comportamentos sociais, eu tenho sentido na prática o quanto o nosso trabalho como designers (designers gráficos, designers de produto ou visual designers) ainda é nebuloso pra grande parte das pessoas que não estão no nosso contexto.

Como boa amante da história da arte, levei alguns highlights de história, de experiência profissional e de teoria acadêmica

Quando em uma turma de 30 alunos apenas 2 levantam a mão ao ouvir a pergunta “quem aqui sabe o que é design gráfico?” fica claro o quanto não saber o que faz um designer não é uma questão só pras gerações anteriores.

Conectei brevemente a teoria com o design do dia-a-dia

Em uma apresentação que seguiu a minha linha do tempo profissional, apresentei o design publicitário, design em marketing e branding, o design gráfico impresso, o design digital em audiovisual, o visual design em elementos de design de produto, o design de produto, a ilustração e a direção de arte. Entendemos juntos que eles estão conectados com o design mesmo sem saber, são observadores e têm interesse nas inovações em todas as áreas do design que permeiam seus cotidianos, mas não sabiam que isso era design e que é criado por pessoas com perfil criativo, assim como eles.

Levei um pouco do design offline
E levei um pouco do meu trabalho em product design

Isso me fez pensar mais uma vez: o design está no dia a dia de todos, mas o designer só está próximo de poucas partes da nossa sociedade, pra não dizer próximos só de nós mesmos.

Dialogar com jovens periféricos é uma pesquisa qualitativa que todos deveríamos aplicar com recorrência

Se o design é uma ciência humana (e eu estou do lado dos autores que defendem essa visão), observar e ouvir as pessoas é fundamental pra nossa profissão. Entretanto, em um cotidiano onde vivemos submersos na esteira de projetos e produtos, é muito fácil que nos afastemos de uma análise mais abrangente da nossa sociedade e foquemos apenas nas pesquisas de públicos recrutados para colaborar em temas específicos e diretamente relativos aos produtos que estamos construindo. Contudo, em quase uma hora de conversa com essa turma, eu pude rever como construir conceitos sobre design parte de falar sobre design como disciplina antes da discussão sobre técnicas, soluções e tecnologias. Algumas das frases que ouvi me marcaram profundamente, e compartilho aqui exatamente as palavras que ouvi:

Eu gosto muito de embalagens e não sabia que isso era design gráfico, agora eu sei que eu não posso só ser catadora de lixo”, quando eu falei sobre design de embalagens;

Eu sinto que criar é o meu jeito de falar, então que legal que eu posso trabalhar com isso”, quando eu falei sobre design ser uma das formas mais importantes de comunicação;

Eu gostei de ver os desenhos no aplicativo, meus pais me falaram pra parar de desenhar porque desenho não dá futuro”, quando mostrei trabalhos de ilustração pra produtos digitais;

Eu sou muito quieta e tímida, eu não sabia que ser observadora servia pra alguma coisa”, quando falei sobre conhecer a sociedade pra trabalhar pra sociedade;

Essas falas me fizeram refletir sobre o quê exatamente — além de produtos — estamos entregando pras novas gerações como designers. Onde está a nossa preocupação com as próximas gerações de profissionais da nossa área? O quanto ainda estamos perpetuando o elitismo e restringindo espaço aberto pra novos profissionais a partir da pouca disseminação de conhecimento pra jovens que não conhecem a atuação do designer?

A inspiração e a esperança é um reconhecimento tão (ou mais) gratificante que o reconhecimento corporativo

Embora a proposta do evento fosse falar sobre caminhos de formação, em nenhum momento me perguntaram sobre como e quando procurar vagas, sobre técnicas de design nem tampouco sobre a se o diploma universitário é necessário. O valor dessa conversa esteve na inspiração em tornar real e palpável uma área de atuação que eles nem conheciam, e, principalmente mostrar, a partir da minha própria vivência, como os interesses artísticos e criativos da adolescência são, sim, um caminho válido, importante e que deve ser considerado, que os seus gostos são férteis e podem ser promissores, e, apesar da situação social e financeira em que eles se encontram, é possível construir uma carreira a partir das habilidades e interesses nos quais eles se conectam em sua essência.

A felicidade que eu fiquei sendo tão bem recebida!

Pra minha surpresa, ao final da conversa o carinho que recebi foi literal: alunes que vieram me abraçar, tirar fotos comigo e fazer perguntas sobre como me sinto na área e sobre o quanto estou próxima dos meus interesses de adolescência. Senti um reconhecimento que parte do quão inspirados ficaram os alunes e do quanto me senti esperançosa em encontrar no futuro essas pessoas colaborando com visões diversas sobre nossa sociedade pra com isso termos uma comunidade de design mais plural e culturalmente rica.

E saí pensando: falar sobre nossas carreiras em escolas públicas dá um bom trabalho voluntário, não? 😉

🔗 Se você gostaria de ver a apresentação completa, clique aqui.

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Raphaella Quarterone

DesignOps lead at Mercado Livre: Construindo produtos para maior eficiência e qualidade de times de UX